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segunda-feira, 16 de julho de 2012

Leituras (9) - Gerrir, de Paulo Morgado




O conceito deste livro, preparado por Paulo Morgado, foge um pouco ao que é considerado o usual nos livros de gestão. Aqui não lemos acerca da história de sucesso de uma dada empresa ou empresário, não lemos sobre os benefícios que uma qualquer medida de política económica poderia trazer para o país. Em Gerrir (Lisboa; Tema Central; 2012) lemos sobre o processo criativo dos entrevistados, que são nada mais nada menos que 11 das mais importantes figuras do humor nacional. A princípio pode parecer que o humor e o sector empresarial são mundos completamente distintos, mas a verdade é que este livro é uma prova da universalidade da gestão. Mostra-nos que até com humoristas podemos aprender algo e transferir esses conhecimentos para as empresas, esperando assim algum resultado. Na verdade, este livro é muito mais um manual acerca do humor nacional, mas de onde é esperado que um gestor tire as suas ilações empresariais. A primeira parte do Gerrir é exactamente uma introdução à história e aos desenvolvimentos do humor português. Aqui são-nos mostrados quais foram os saltos desta indústria nos últimos anos, as personagens decisivas e em alta em cada um desses períodos e também a herança de cada uma dessas eras para o panorama actual do humor português. Posteriormente, temos as entrevistas com os 11 “humoristas” – Nuno Artur Silva, Herman José, Luís Afonso, Luís Pedro Nunes, Nuno Markl, Nilton, Ricardo Araújo Pereira, Fernando Alvim, Nuno Costa Santos, Jel e Bruno Nogueira. Em cada uma das entrevistas estas personalidades descrevem o seu processo criativo enquanto humoristas, quais as maiores dificuldades, como se organizam, onde se inspiram, entre vários outros aspectos. É precisamente destas entrevistas que os gestores podem tirar algumas lições. O processo criativo e as fontes de inspiração, as análises custo-benefício que o humorista faz acerca de cada piada ou actuação, ou ainda a obrigatoriedade de arriscar no momento decisivo são tudo pequenos grandes passos na construção do humor e dos quais o gestor pode tirar relevantes lições para melhorar também o seu processo de decisão e de gestão. No final do livro aparece a parte efectivamente relacionada com a gestão. Paulo Morgado elabora uma lista de 12 verbos (perspectivar, ritualizar, capacitar, ensinar, retoricar, arriscar, simbolizar, vincar, fazer, analisar, intuir e emancipar), descrevendo a importância destes, mais propriamente das acções em si implícitas, para o processo produtivo de um gestor. Em cada um dos verbos é feito também o paralelismo com os relatos dos entrevistados, e onde nas suas histórias podemos ver estes verbos presentes. Por tudo isto, Gerrir é um livro interessante, bem humorado e onde podemos ver os relatos de muitos dos humoristas que são actualmente as “estrelas” da sua indústria. Tê-los em discurso directo a relatar-nos o seu processo criativo é engraçado e inspirador. Por este carácter bem humorado e descontraído, Gerrir requer também uma abordagem não a um livro de gestão, mas sim a um relato do humor de onde se podem tirar lições empresariais. 


Sublinhados:

 “(...)um dos elementos cruciais para a criação do cómico é o ângulo inovador, surpreendente, irreverente, oportuno... com que olhamos para a realidade que nos envolve.”
  
Paulo Morgado, sobre o verbo “Perspectivar”

 “Que se desengane aquele que pensa que o acto da criação não está sujeito a certas rotinas implacáveis! A inovação só é frutífera se as novas células se replicarem ordenadamente dentro de um tecido, com uma identidade única, que as protege. A inovação desordenada, caótica, é, normalmente, o prenúncio da morte de um organismo ou de parte dele – tal como acontecerá nas empresas.”

Paulo Morgado, sobre o verbo “Ritualizar”

segunda-feira, 18 de junho de 2012

Leituras (8) - A sorte dá muito trabalho, de Rute Sousa Vasco e Fernando Neves de Almeida


Em todas as áreas, em todas as actividades, a generalidade das pessoas ambiciona poder chegar ao patamar daqueles que considera os melhores, com os quais se identifica e que segue como exemplo na sua carreira e vida. Isso não é diferente na área da gestão. Para uma grande parte dos gestores, aprender com os exemplos de sucesso é uma parte importante da aprendizagem contínua que o mundo dos negócios requer, de evoluírem e de definirem o seu estilo de gestão e as suas estratégias. Olhar para o que gestores de sucesso fizeram, como o fizeram e em que circunstâncias… continua assim a ser uma forma privilegiada de formação pessoal.
Muitos livros têm sido publicados com as biografias e percursos profissionais de gestores de topo, sendo notório neste ramo a hegemonia na oferta de relatos de percurso dos executivos de topo e gurus norte americanos. Os nomes da gestão cujo percurso preenche as prateleiras das livrarias mundiais merecem todo o crédito, mas por vezes também muito se pode aprender com certeza com gestores menos “estrela”, muitas vezes até desconhecidos do público em geral, mas que mesmo assim desempenham papéis críticos em empresas de grande dimensão, tendo através delas um papel nas nossas vidas que muitas vezes ignoramos.
Na obra “A sorte dá muito trabalho – O fator sorte e o fator trabalho na vida de 23 líderes portugueses” (Coimbra: Edições Almedina, 2012), assinado por Rute Sousa Vasco e por Fernando Neves de Almeida, temos exactamente isso, a oportunidade de aprender com o percurso de 23 CEO portugueses, que exercem cargos de chefia em grandes empresas a operar em Portugal. Através de entrevistas concedidas a Rute Sousa Vasco, é reconstituído o percurso profissional e também o perfil destes 23 casos de sucesso - Ana Paula Moutela (Zara), António Bico (Zurich), António Casanova (Unilever), António Coimbra (Vodafone), António Reffóios (Nestlé), Bernardo Bairrão (TVI), Carlos Barros (Fujitsu), Cláudia Almeida e Silva (FNAC), Diogo da Silveira (Açoreana), Eduardo Moradas (BES), João Costa (Matutano), João Leandro (Axa Portugal), Jorge Martins (Martifer), José Coelho (Zurich), José Joaquim Oliveira (IBM), José Serrano Gordo (BP Portugal), Luís Filipe Reis (SONAE SGPS), Luís Magalhães (Deloitte), Luís Paulo Salvado (Novabase), Mário Barbosa (McDonald’s), Carlos Melo Ribeiro (Siemens), Nuno Amado (Santander) e Vítor Neves (Colep). Nesta análise, fala-se do percurso académico, estudos posteriores, sobre quais foram os momentos chave na sua carreira, dificuldades por que passaram, e também de quais os factores que os próprios consideram que exerceram mais influência na construção da sua carreira. Temos assim uma análise a um percurso de sucesso feita pelos próprios intervenientes nesse percurso.
No final do livro, Fernando Neves de Almeida traça um perfil comum de liderança e sucesso, dando a conhecer ao leitor também quais alguns dos factores críticos para o sucesso. É feita uma listagem dessas características, uma explicação geral sobre a mesma e finalmente uma análise da sua importância individual, sendo também feito o paralelismo e o enquadramento com os 23 percursos que nos são dados a ler antes.
Este livro é, desta forma, uma ferramenta interessante de aprendizagem e de aconselhamento para futuros e actuais gestores, mostrando-nos qual a “receita” que os 23 CEO seguiram para atingirem as posições estratégicas e de chefia que hoje ocupam.

Sublinhados:

 “Temos de nos pôr a jeito para ter sorte (...) A sorte dá trabalho, mas temos de desejar ir buscá-la.” Carlos Barros – Director-Geral da Fujitsu Portugal

 “A cooperação é fundamental, mas baseada na heterogeneidade e em diferentes pontos de vista.” Diogo da Silveira – CEO da Açoreana

sábado, 11 de fevereiro de 2012

Leituras (7) - Como fazer amigos e influenciar pessoas, de Dale Carnegie



Este livro é o expoente máximo da literatura motivacional e uma referência absoluta nesse ramo da escrita. É também, praticamente desde a sua escrita, uma ferramenta considerada de grande utilidade para os gestores.
O livro original foi publicado em 1937 por Dale Carnegie, como um sumário e também guia de ideias dos cursos de comunicação e motivação que o autor promovia pelos EUA. Desde então, tem sido um verdadeiro sucesso, com milhões de cópias vendidas, sendo que actualmente existem traduções em mais de 40 línguas. Em 1981, o livro teve uma nova edição, esta já revista pela viúva de Dale Carnegie, em que nenhum dos ensinamentos do livro foi alterado, apenas foi feita uma pequena actualização para os tempos modernos.
O livro é todo ele escrito com um estilo de escrita simples, directo e acessível, o que torna a sua leitura bastante fácil. Também está dividido em capítulos que geralmente são de pequenas dimensões, o que também se torna benéfico para a leitura e também para a organização e consolidação de conhecimentos.
Confiante e ciente da importância que as questões do discurso e das relações entre as pessoas têm no sucesso profissional, Dale Carnegie dá ao leitor, logo no início, um conjunto de 9 conselhos para a correcta leitura do livro. Não os enumerando aqui, fica o registo de que todos eles incentivam a prática dos conhecimentos adquiridos no livro e a avaliação dos resultados. Dale Carnegie sugere também que o leitor leia duas vezes cada capítulo antes de passar ao seguinte, para verdadeiramente interiorizar a mensagem, e também que a leitura do livro não seja feita uma única vez, sugerindo que se volte regularmente a folheá-lo, para recordar tão preciosos ensinamentos.
À primeira vista, pode parecer apenas mais um livro motivacional, mas a verdade é que o sucesso que tem tido não deixa nenhum leitor indiferente. Ao lermos o livro, observamos lá muitos conceitos, muitas regras de boa educação, muitos métodos de relacionamento que nos parecem óbvios, mas dos quais nem sempre nos lembramos, ou para os quais nunca fomos alertados acerca da sua importância numa relação com o outro. Se seguirmos os conselhos do próprio autor, vemos que eles fazem todo o sentido e que se os tentarmos pôr em prática podemos mesmo conseguir alguns resultados. Não se trata de um livro miraculoso que salve a nossa vida, mas, se o lermos com atenção, pensarmos sobre ele e tentarmos melhorar com ele, pode mesmo fazer alguma diferença. Mas, tal como o próprio autor avisa, cada pessoa é diferente, pelo que o impacto nuns pode ser maior ou menor que noutros.
Muitos dos conselhos são mesmo ilustrados com casos da vida real da época em que foi escrito, e que, devido à sua antiguidade, podem parecer ultrapassados, mas o ensinamento acaba por se mostrar intemporal.
Posto tudo isto, Como fazer amigos e influenciar pessoas é um manual para melhores relacionamentos e melhor comunicação, e, tendo em conta que qualquer área de trabalho está baseada essencialmente em pessoas, e que todos temos a necessidade de comunicar, o livro pode mesmo trazer algo de novo e bom para este ramo.

Sublinhados:

“Se tentarmos apenas impressionar as pessoas e fazer com que se interessem por nós, nunca teremos amigos verdadeiros e sinceros. Os amigos, os verdadeiros amigos não se fazem desta forma.”

“Descobri, na minha experiência pessoal, que podemos conquistar a atenção, o tempo e cooperação das pessoas mais solicitadas se estivermos genuinamente interessados nelas.”

“Uma birra terrível, ou mesmo o crítico mais feroz, ficam apaziguados e são conquistados pela presença de um ouvinte atento e compreensivo – um ouvinte que fica em silêncio enquanto o acusador furioso se ergue como uma serpente e cospe o veneno do seu sistema.”

sexta-feira, 22 de julho de 2011

Leituras (6) - StoryTelling, de Gabriel García de Oro


Gabriel García de Oro nasceu na cidade de Barcelona, decorria o ano de 1976. Tendo feito a sua formação académica em Filosofia, dedicou a sua carreira à vida empresarial, mais precisamente como criativo na OgilvyOne.
Neste seu livro, StoryTelling – A Magia das Palavras (Lisboa: GestãoPlus Edições / Bertrand, 2011), o autor fala-nos acerca de algumas das dificuldades que actualmente as empresas atravessam, ajudando o leitor a identificá-las e aconselhando-o sobre muitas delas, mas de uma forma curiosa e que acaba por se revelar bastante útil, contando-nos uma história. Não uma história densa e que dure várias páginas, pois a maior parte delas são na verdade anedotas, fábulas e pequenos contos, que demoram pouco a ler.
O que é verdadeiramente interessante e que nos obriga quase que involuntariamente a memorizar a história contada é o comentário feito pelo autor no fim de cada uma. Este comentário, mais do que nos transmitir a moral da história, procura relacioná-la com a vida empresarial, seja em termos de comportamento em grupo ou individual. E é nestas conclusões, também elas curtas mas ricas, que identificamos várias situações pertencentes ao quotidiano de cada trabalhador, de cada líder, de cada gestor.
Após a leitura do conto e do comentário, é fácil identificá-las no nosso próprio dia-a-dia e somos também levados a reflectir um pouco sobre elas, como nos afectam e como podemos mudá-las, levando muitas vezes a um compromisso pessoal de mudança (compromisso esse que muitas vezes acaba por ser esquecido logo ao virar de página, ficando no entanto o esforço).
Para além da reflexão e tentativa de melhoramento pessoal, este livro e estes contos podem também tornar-nos bons contadores de histórias, e, consequentemente, bons professores para este tipo de morais e conselhos. É-nos explicado no prefácio do livro que este tipo de metáforas e combinações de ideias coloca em acção o hemisfério direito do nosso cérebro, que nos torna mais completos, intuitivos e criativos, servindo também como uma maneira mais rápida para atingir as nossas emoções.
Desta forma, para este tipo de lições, uma história é mais completa, criativa e memorizável que um conjunto de números ou estatísticas, daí advindo a importância do Storytelling no contexto empresarial.
Esta importância fica patente na frase que introduz o livro, da autoria do escritor dinamarquês Hans Christian Andersen: “Os contos servem para adormecer as crianças e despertar os adultos”.
Os contos são cerca de 50 e procuram focar todo um conjunto de vertentes da vida empresarial, como Gestão do Tempo, Gestão do Poder, Liderança, Estratégia, entre muitas outras.
Assim, após a leitura deste livro. ficamos provavelmente mais aptos para despertar os adultos. Ficamos, pelo menos, de certeza com um espólio de contos para adormecer os filhos ou intervir com um certo estilo numa reunião ou entrevista, contando uma história e transmitindo a sua moral.

quarta-feira, 13 de julho de 2011

Leituras (5) - Economia, Moral e Política, de Vítor Bento



No seguimento da colecção de estudos acerca da realidade portuguesa organizados pela Fundação Francisco Manuel dos Santos, foi publicado este ano o livro “Economia, Moral e Política”, da autoria de Vítor Bento, economista e mestre em Filosofia.
O autor faz uma análise e uma explicação dos ciclos económicos, mas não apenas de um ponto de vista teórico, fazendo também uma introdução à acção política e à moralidade dos intervenientes na economia mundial, relacionando assim as três variáveis, culminando numa obra que retrata bem os problemas actuais da economia e que dá uma outra visão bastante importante para a sua compreensão, analisando em que medida estes mesmos problemas são ou não criados pela mudança nos padrões morais da sociedade.
O livro está dividido em quatro capítulos. Um primeiro, intitulado “Economia e Moral”, onde começa a ser feita a relação entre as três variáveis presentes no título, análise introdutória que é terminada no segundo capítulo, “Economia, Ciência e Política”. O terceiro capítulo, “Financiamento e Eficiência Económica”, apresenta-nos o sistema financeiro mundial, elucidando-nos acerca de algumas das suas regras e produtos, mas também, e principalmente, quais os seus problemas e perigos. No final do livro, juntam-se os três capítulos anteriores numa análise à actual crise mundial, onde o autor nos deixa a ideia de que a actual crise é não só económica e financeira, mas também moral e que as sociedades foram empobrecendo os seus valores morais, deixando a porta aberta para que este tipo de situações (crises) se suceda.
Nesta última parte, a Economia, a Moral e a Política são verdadeiramente integradas e colocadas sobre a actual crise, mostrando como tudo se começou a desenrolar e ainda não terminou. Vítor Bento aponta a ganância, a valorização da riqueza material acima de tudo, a pressão constante por melhores resultados contabilísticos e sobretudo a perda de valores morais e de ética por parte de grande parte da população, em especial dos dirigentes das empresas, como uma das pedras basilares desta crise.
A verdade é infelizmente essa e somos confrontados com ela todos os dias, sucedendo-se os casos de corrupção e de outros crimes, tudo em prol muitas vezes do resultado a curto prazo que fique bem nos relatórios e contas, sacrificando muitas vezes a sustentabilidade da empresa e/ou das próprias nações.
Toda essa análise alastra-se também, quando necessário, à actuação dos Estados, onde também reinam os problemas acima referidos, acrescendo o endividamento, as más políticas, entre outros, que colocam em risco a sustentabilidade de países inteiros.
Este livro está escrito de uma maneira bastante compreensível e fácil de ler, onde os termos demasiado específicos não abundam, e, mesmo quando presentes, são explicados, muitas vezes até com exemplos. Cada um dos capítulos principais está dividido em subcapítulos de poucas páginas, o que facilita também a leitura e a organização da informação.

Sublinhados:

«Mas como a vida social precisa de valores comuns para se poderem regular as interacções sociais com um mínimo de eficácia funcional, a relativização dos valores intangíveis acabou por fazer emergir como “âncora” socialmente reconhecida o único valor cuja tangibilidade permite estabelecer facilmente comparações e hierarquizações: a riqueza material.»

«Sendo a acumulação e ostentação de riqueza o valor dominante do reconhecimento social, quem lhe tentar interpor outros valores nas suas preferências pessoais acaba por ter resultados inferiores naquela acumulação. E será facilmente afastado dos processos de decisão, em favor de decisores menos escrupulosos e mais dispostos a subalternizar os valores intangíveis.»

«De facto, foi, confiantes na arrogante crença de que a apreensão da complexidade relacional da vida social, por sofisticadas fórmulas matemáticas, seria apenas uma questão de capacidade de processamento informático, que muitas instituições financeiras deixaram a gestão dos seus riscos à última moda dos modelos matemáticos, em detrimento do pouco científico, mas razoável, juízo humano, apoiado na humildade, no bom senso e na dúvida metódica. Com o resultado que ficou à vista.»

«Só que a preferência dada à equidade tende a embotar a eficiência, pois que a sua acção se destina a contrariar os estímulos que levam ao empreendedorismo, à assunção de riscos e à criatividade. Pelo que a prolongada persistência na prioridade dada a tais critérios, muitas vezes ditada por fundamentos populistas, pode acabar por, sacrificando a dimensão do bolo a distribuir, conduzir a um empobrecimento relativo de toda a sociedade.»

«A resolução da presente crise implica, antes do mais, o esvaziamento da bolha financeira. O que, por sua vez, implica a destruição da riqueza artificialmente criada, mas que, tendo sido percebida como real, fundamentou um padrão de consumo e de investimento. Padrão esse que agora terá de ser também ajustado para níveis assentes em valores de riqueza e rendimento sustentáveis.»

domingo, 9 de janeiro de 2011

Leituras (4) - "O Príncipe", de Nicolau Maquiavel


“O Príncipe”, escrito por Nicolau Maquiavel, aparece-nos como outro dos grandes clássicos da literatura mundial que se tornou leitura aconselhada para gestores e líderes.
A obra foi dedicada ao filho de Piero de Medici, Lorenzo II de Medici, um nobre italiano, Duque de Urbino e governador de Florença entre 1513, ano em que foi escrito o livro, e 1519.
Com esta obra, Maquiavel pretendia ensinar ao novo governador como ser um líder militar e político exemplar e que dificilmente falhasse. São então dadas instruções de como agir em caso de combate, de que tropas escolher, de que pessoas se rodear, e que atitudes um verdadeiro líder deve adoptar para atingir o sucesso. Estas instruções são acompanhadas com a descrição de episódios da história italiana contemporânea de Maquiavel e até mesmo com alguns relatos de episódios dos grandes impérios da Antiguidade, para mostrar os frutos que se podem colher com uma liderança forte e regida pelos princípios patentes no livro, bem como as desgraças em que o futuro príncipe pode incorrer se acabar por se tornar num líder fraco.
Desta forma, “O Príncipe”, surge como um verdadeiro manual da liderança, lido e pensado por alguns dos grandes estrategas militares da história, como Napoleão Bonaparte, e que também acabou por ser adoptado pela Gestão como um dos clássicos a analisar, pelas importantes lições acerca de liderança que se podem retirar da sua leitura.
O livro conta com 26 capítulos, dos quais grande parte não ultrapassa as 5 páginas. De leitura rápida e fácil, mesmo tendo em conta a época em que foi escrita, está disponível com um vocabulário bastante acessível.


Sublinhados:
“Assim acontece nas coisas do Estado; porque, conhecendo-se com antecipação (coisa que se não oferece senão ao homem prudente) os males que nele nascem, é possível curá-los rapidamente; mas quando, pela ignorância deles, crescem de tal modo que todos se apercebem da sua existência, é que não há mais remédio.”

“E, por isso, um príncipe que não cuide da milícia, além de outras infelicidades, como se disse, não pode ser estimado pelos seus soldados, nem fiar-se neles.”

“ E os homens hesitam menos em ofender um que se faça amar do que um que se faça temer; porque o amor consiste num vínculo de obrigação que, dada a maldade dos homens, é roto no primeiro momento em que se levanta o interesse; mas o temor consiste num medo de represálias que nunca cessa. Deve, todavia, o príncipe fazer-se temer de modo que, se não ganhar amor, evite o ódio, porque pode muito bem conjugar o ser temido com o não ser odiado; (…)”

“Aquele príncipe que produz de si esta opinião é assaz reputado; e contra quem é reputado com dificuldade se conjura, com dificuldade de trata de atacá-lo, porque se sabe que é excelente e reverenciado pelos seus.”

“E os homens em geral julgam mais pelos olhos que pelas mãos, porque ver é coisa que toca a todos, e sentir a poucos. Todos vêem o que parecemos, poucos sentem o que somos; (…)”

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Leituras (3) - "Economia Portuguesa, as últimas décadas" de Luciano Amaral



Recentemente, a Fundação Francisco Manuel dos Santos (que apresenta como objectivo principal a promoção e o estudo da realidade portuguesa, sendo responsável por vários projectos, como o portal Pordata) lançou um conjunto de estudos precisamente sobre a realidade portuguesa em várias áreas, desde a educação à economia, passando ainda pela justiça fiscal.
Um desses ensaios, da autoria de Luciano Amaral, intitula-se Economia Portuguesa, as últimas décadas, e faz uma análise do que tem sido a economia portuguesa pós-25 de Abril, e de quais têm sido os principais problemas, mas também virtudes da nossa economia nestes últimos 35 anos, responsáveis pelo estado em que hoje nos encontramos.
O livro faz assim um retrato detalhado dos acontecimentos económicos que colocaram Portugal na difícil situação em que se encontra actualmente, dando como exemplo o descalabro em termos de aumentos salariais em 1975, a fraca produtividade dos trabalhadores portugueses face aos seus salários, a entrada no euro e as condições que se têm criado para a expansão do sector não transaccionável da economia como algumas das principais razões para o descontrolo económico do país durante grande parte das últimas décadas. É ainda feita uma análise à relação existente entre a educação e o desenvolvimento económico, aposta que em Portugal não tem tido os efeitos pretendidos. Apesar de tudo, ao longo do livro vemos também que em Portugal também tem havido boas práticas económicas que nos levaram a bons ritmos de crescimento sobretudo no início dos anos 90, e que chegaram a catapultar a nossa economia como um caso de sucesso e de estudo.
Apesar de se tratar de um livro de economia, todo o texto está escrito de uma maneira bastante acessível, onde não abunda uma linguagem demasiadamente técnica, ou seja, que pode ser lido facilmente por qualquer pessoa sem grandes conhecimentos na área económica, havendo inclusive, um glossário no final onde estão presentes as definições dos poucos termos menos acessíveis utilizados na obra.


Sublinhados:
“A importância do Estado para o aumento do investimento no país é indubitável. Mais problemática é a qualidade desse investimento.”

“Por vezes a relação é estabelecida de forma quase directa: mais educação seria igual a mais crescimento económico. Sem negar a importância da formação escolar, veremos mais adiante que, tanto a nível social como económico os seus efeitos benéficos são um pouco menos óbvios. Eis algo que, entre outras coisas, tem consequências para a própria política educativa, nomeadamente quando tanta esperança é colocada na relação directa entre gasto público e aumento dos níveis educacionais.”

“Curiosamente, esta actividade permanente acaba por representar um obstáculo à capacidade do Estado-Providência para cumprir o objectivo da igualdade de rendimento. É que o frenesim reivindicativo a que se sujeita conduz à criação de especialistas em reivindicação, cuja tarefa é obterem as melhores condições de remuneração possíveis. Só que estes especialistas não correspondem necessariamente aos mais carentes, mas apenas aos mais capazes de negociar.”

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Leituras (2) - Top 50 da Gestão

Uma lista de 50 livros a ler, publicada na separata “Os caminhos da Gestão – 50 livros fundamentais”, da revista Dirigir (IEFP: nº110, Abril a Maio.2010), apresenta alguns dos nomes e títulos que mais influenciaram a liderança, a motivação, a gestão em geral, de que se fala nos dias de hoje. O leitor pode, ao longo de quase 2500 anos de escritos (as obras surgem ordenadas cronologicamente), apreender o nascimento das ideias e das práticas que actualmente são utilizadas, ensinadas e tidas como ideais para muitos gestores, demonstrando assim o processo histórico por detrás dos métodos de gestão.
Aqui fica a lista, elaborada por J. M. Marques Apolinário, onde mantenho os títulos em inglês (conforme a lista original) e, entre parêntesis, as respectivas traduções portuguesas que me foi possível encontrar (a partir do catálogo da Biblioteca Nacional de Portugal).

Pré-História da Gestão
The Art of War (A Arte da Guerra), Sun Tzu (500 a.C.)
The Prince (O Príncipe), Nicolau Maquiavel (1513)
An Inquiry into the Nature and Causes of the Wealth of Nations (Inquérito sobre a natureza e as causas da riqueza das nações), Adam Smith (1776)

1900-1929
The Principles of Scientific Management (Princípios da Administração Científica), Frederick W. Taylor (1911)
General and Industrial Managent (Administração Industrial e Geral), Henry Fayol (1916)
My life and Work (Minha vida e minha Obra), Henry Ford (1923)

Anos 30
How to win friends and influence people (Como fazer amigos e influenciar pessoas), Dale Carnegie (1937)
The functions of the executive (As Funções do Executivo), Chester Barnard (1938)

Anos 40
Dynamic Administration, Mary Parker Follet (1941)
Theory of social and economic organization, Max Weber (1947)

Anos 50
Motivation and Personality, Abraham Maslow (1954)
The Practice of Management (Prática de Administração de Empresas), Peter Drucker (1954)
Parkinson’s law (A Lei de Parkinson), C. N. Parkinson (1958)
The Motivation to work, Frederick Herzberg (1959)

Anos 60
The Human side of enterprise (Os aspectos humanos da empresa), Douglas McGregor (1960)
Innovation in Marketing, Ted Levitt (1962)
Strategy and Structure, Alfred Chandler (1962)
A Company and its Beliefs, Thomas Watson Jr. (1963)
My Years with General Motors (Eu e a General Motors), Alfred P. Sloan (1963)
Corporate Strategy (Estratégia Empresarial), Igor Ansoff (1965)
Marketing Management (Administração de Marketing), Philip Kotler (1967)
The Age of Discontinuity (Uma era de desconhecimentos), Peter F. Drucker (1969)

Anos 70
Up the Organization, Robert Townsend (1970)
The Nature of Managerial Work, Henry Mintzberg(1973)
Organizational Learning, Chris Argyris & Donald Schon (1978)
Leadership, James MacGregor Burns (1978)

Anos 80
Competitive Strategy (Estratégia Competitiva), Michael Porter (1980)
The Third Wave (A terceira vaga), Alvin Toffler (1980)
The Art of Japanese Management, Richard Pascale & Anthony Athos (1981)
In Search of Excellence (Na senda da excelência), Tom Peters & Robert Waterman (1982)
The Mind of the Strategist, Kenichi Ohmae (1982)
Out of the Crisis, W. Edwards Deming (1982)
Change Masters, Rosabeth Moss Kanter (1983)
Management Teams, Meredith Belbin (1984)
Leaders (Líderes), Warren Bennis & Burt Nanus (1985)
Organizational Culture and Leadership, Edgar Schein (1985)
Juran on Planning for Quality, Joseph M. Juran (1985)
Managing across Borders, Christopher Barlett & Sumantra Ghoshal (1989)
The Age of Unreason (A era da irracionalidade), Charles Handy (1989)

Anos 90
The Borderless World (O Mundo sem fronteiras), Kenichi Ohmae (1990)
The Competitive Advantage of Nations (A vantagem competitiva das Nações), Michael Porter (1990)
Management on the Edge, Richard Pascale (1990)
The Fifth Discipline (A Quinta Disciplina), Peter Senge (1990)
Liberation Management, Tom Peters (1992)
Maverick!, Ricardo Semier (1993)
Reengineering the Corporation (A reengenharia da empresa), James Champy & Michael Hammer (1993)
Riding the Waves of Culture, Fons Trompenaars (1993)
The rise and fall of Strategic Planning, Henry Mintzberg (1994)
Corporate-Level Strategy, Michael Gold, Andrew Campbell & Marcus Alexander (1994)
Competing for the Future, Gary Hamel & C. K. Prahalad (1994)

domingo, 25 de julho de 2010

Leituras (1) - Sobre "A Arte da Guerra", de Sun Tzu

Escrita no Império Chinês pelo conhecido estratega Sun Tzu, durante o século VI a.C., esta obra serviu de referência para vários dos grandes oficiais e estrategas militares presentes nos conflitos da nossa História.
Recentemente, a utilização prática deste tratado de guerra foi alargada e, actualmente, é tida como leitura obrigatória para os gestores e líderes de empresas de topo, pois, em vários passos presentes ao longo dos treze capítulos, são fornecidas tácticas e conselhos simples e eficazes sobre como moralizar e lidar com as tropas, estabelecer planos, atacar, defender, manobrar, passos estes que saem do sentido estritamente militar e continuam plenos de sentido no domínio empresarial.
É assim uma obra de relevo para os empresários de hoje em dia, estimulando as capacidades de se manter forte no campo dos negócios, resistir ao panorama exterior e interior e, mais que tudo, a capacidade de liderar, mantendo uma relação próxima, de respeito e de abertura com os colaboradores, conseguindo estimular a moral e levando a que todos compreendam a visão e a missão da empresa e rumem no mesmo sentido com gosto, eficácia e dedicação.
É uma obra estratégica a ler e analisar, sem dúvida, com contributos para o mundo da gestão.
O leitor interessado deve gastar algum tempo a folhear as diversas edições presentes no mercado, pois a oferta é variada, havendo edições apenas com os princípios do mestre Sun Tzu enquanto outras edições apresentam interpretações esclarecidas de vários dos tradutores e estudiosos desta obra, incluindo algumas até mesmo relatos dos episódios históricos que terão levado à constituição dos princípios.
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1. "O general é o baluarte do Estado: se o baluarte for completo a todos os níveis, o Estado será forte; se o baluarte for deficiente, o Estado será fraco."
2. "O líder perfeito cultiva a lei moral e adere estritamente ao método e à disciplina; assim, está nas suas mãos controlar o sucesso."
3. "Um exército pode marchar grandes distâncias sem grandes dificuldades, se marchar por regiões onde o inimigo não se encontra."
4. "Manobrar um exército é vantajoso; com uma multidão indisciplinada, é extremamente perigoso."
[citações a partir da edição anotada por Lionel Giles (Lisboa: Edições Sílabo, 2007)]